Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Há 24h atrás...

Está agora a fazer 24 h que dei entrada nas urgências de obstetrícia no Hospital da Estefânia... mas voltando um bocadinho atrás...

Depois de ter começado o ano com a bela novidade que afinal, já não éramos 3, mas sim 4, no dia 21 de Janeiro tive a minha primeira consulta de grávida. Nessa consulta e com base na minha última menstruação a médica disse-me que eu estaria de menos tempo do que a calculada com base na última menstruação. Ora, gaja que é gaja e que sabe o que faz, sabia perfeitamente que alguma coisa se passava pois seria impossível estar de menos tempo. A médica pediu-me para ir ter com ela na 2ª feira seguinte à Maternidade onde ela faz "banco" para fazermos uma eco e aí confirmarmos o tempo real da gravidez.

A eco confirmou que a gravidez por alguma razão não estava a evoluir. Na eco foi detectado um saco alongado e não se conseguia ver o feto. Ok.
Sai de lá e chorei. Chorei muito. Lambi a ferida. Nesse dia, fiz as perguntas de quem se sente como uma vítima (e será que não fui?), Porquê eu? Será que foi alguma coisa que eu fiz? As perguntas que acho normais a quem passa por este tipo de situações.
Depois, tentei racionalizar... se era para correr mal, então, ainda bem que foi agora. Se aconteceu isto, alguma razão houve para assim ser (não acredito em coincidências)... Segundo me foi dito, isto acontece a 80% das mulheres... ok... é a natureza se quiserem.
Andei a "mentalizar-me" nos dias seguintes até que decidi despedir-me do que quer que fosse que estava dentro da minha barriga. Por muito descabido que vos possa parecer, mesmo que aquele coração nunca tenha sido formado ou que nunca tenha chegado a bater, era suposto ser o meu bébé, por isso, mesmo que nem se tenha formado (acabei por não saber se alguma vez chegou a existir o embrião), para mim ficou como o meu bébé e por isso mesmo, disse-lhe que o amava - é incrível o amor que somos capazes de sentir por "qualquer coisa" que exista dentro de nós apartir do momento em que sabemos que estamos grávidas - chorei a sua "partida" e, acreditem ou não, senti paz. Senti calma. Aceitei. Simplesmente Aceitei!

Desde o dia em que fiz a eco que comecei com ligeiras perdas de sangue, mas a médica disse-me que seria normal, que só deveria ir às urgências quando a hemorragia aumentásse, tipo uma menstruação. Esta última 2ª feira comecei com as tais hemorragias mais fortes e dirigi-me às urgências. Depois de observada, mandaram-me para casa pois a hemorragia ainda era leve. Só deveria voltar caso se intensificassem. Ok.

A ansiedade estava quase a ser insustentável - eu já de mim sou muito ansiosa: se alguma coisa está por tratar, vamos lá despachar o assunto - mas, segundo as médicas, o que faz muito sentido, era preferível ser o organismo a explusar do que estar a ser "mexida". Compreendido, mas a ansiedade não diminuía (até porque tenho andado neste mês que passou sob muito stress por questões pessoais, coisas da vida...).

A PARTIR DAQUI NÃO ACONSELHO A LEITURA A PESSOAS MAIS SUSCEPTÍVEIS!!!


Ontem, durante todo o dia, a hemorragia estava ligeiramente mais forte, mas não se tinha propriamente intensificado e as dores (numa escala muito inferior, mas contracções) mantiveram-se durante o dia todo.
Como já estava a ser hábito, no final do dia, o cansaço era forte. O meu gajo por me ver assim, tratou do jantar. Tínhamos terminado de jantar, estava eu a tomar o meu café quando senti "algo" a sair. Corri para a casa de banho, pois sentia o sangue a escorrer-me pelas pernas e a minha preocupação era que o filhote não me vissse assim, não o queria assustar de maneira nenhuma.

Sentei-me na sanita, tirei as calças, cuecas, meias... que ficaram sujas de sangue e sentia grandes coágulos a sair de mim. Uma quantidade inexplicável... e fico-me aqui por estes pormenores. O gajo, foi deixar o filhote na mãe enquanto eu tomava um duche para irmos às urgências.
O gajo chegou e lá fomos nós. Já nas urgências onde um senhor recebeu a notícia que a sua bébé já tinha nascido (estas coisas deixam-me sempre uma lágrima no olho e um sorriso de alegria nos lábios), as minhas idas ao WC foram constantes e "bocados" continuavam a sair... aca.bei por ser chamada e lá me estiveram a observar. Diagnóstico: aborto em evolução mas não tinha saído ainda nada, a não ser enormes coágulos de sangue que eu era capaz de jurar que era "sacos" idênticos à placenta (não tão grande) que nos é retirada depois do parto. Juro-vos que fiquei parva!! Como era possível que tudo o que tenha saído de mim, eram só coágulos de sangue?!??!
Confesso-vos que não sou propriamente uma pessoa impressionável com estas coisas, mas isto pode ser mesmo muito assustador para pessoas mais sensíveis.

Tentaram tirar o dito "saco" (desculpem, mas dão-lhe o nome de saco qualquer coisa, mas juro que não me lembro do nome), mas as dores das contracções, o útero sensível e a camada de nervos não permitiu que me mexessem. Mediram-me a tensão - que estava mais baixa do que é normal - e mandaram-me fazer análises para ver os níveis da hemoglobina pois eu estava a perder muito sangue.

Depois de terem os resultados das análises, voltaram-me a chamar. Agora, outra médica estava a observar-me para ver a evolução. Tudo na mesma. Aborto em evolução e nada de expulsão do saco. A médica, super atenciosa falou comigo e explicou-me que se eu permitisse, ela iria tentar retirar o saco, pois isso iria aliviar-me e poderia vir para casa repousar. Concordei, mas... não consegui. A dor, o desconforto, sei lá... era tanto que comecei a sentir-me mal e a médica foi obrigada a parar. Resultado: tive que ficar internada.

Colocaram-me a soro e prepararam-me para o bloco, ou seja, teria que passar pela raspagem. Enquanto aguardava para entrar no bloco, o meu gajo ficou do meu lado, a dar-me mimos e a ver-me chorar - naquele momento precisei de chorar para aliviar toda a tensão e nervos acumulados.
A anestesista veio e explicou-me que não me poderia dar epidural pois eu tinha comido apenas há 3 horas e por isso mesmo teria que ser apenas ligeiramente sedada, ou seja, embora a intensidade não fosse tão grande, mas iria sentir tudo. Mas tinham que avançar pois eu estava a perder muito sangue.

Ok. Mentalizada.
Entrei no bloco, preparam-me e ainda dei conta da anestesista ter injectado o sedativo no soro depois... apaguei. Recordo-me de ao sair do bloco, o meu gajo me ter beijado, e já não me recordo de mais nada. Hoje de manhã acordei ainda não eram 9h. Chamei a enfermeira pois não sabia se podia ou se me deveria levantar e precisava urgentemente de fazer xixi. Como ainda estava a soro, a enfermeira ajudou-me até ao WC. Tive receio ao levantar-me, tive receio das dores que poderia ter, mas... nada!!!! Apenas uma ligeira dor de cabeça. Incrível! Parecia que todas as dores que eu tinha tido na noite anterior, tinham sido apenas um pesadelo!

Já perto do meio-dia, fui observada pela médica que me disse que tudo tinha corrido bem no bloco, que estava "limpa" e que se me sentisse realmente bem, poderia sair, no entanto, eu teria que assinar um documento, pois o internamento nos hospitais e para que os hospitais recebam (da segurança social, será?), obriga a 24h. Ou seja, eu só poderia sair agora, no exacto momento em que vos escrevo.
Perguntei se corria alguns riscos em sair sem fazer as 24h ao que a médica me respondeu "Nenhuns", pois ela também me daria alta, não fosse aquela "regra". Assinei o documento e vim para casa descansar.

Já estou a tomar ferro por causa da perda de sangue e agora vou recuperar.

O porquê de ter escrito tudo isto aqui?? Porque a ignorância de quem não tinha nunca passado por isto nem saber que seria assim, considerei este episódio ligeiramente marcante, digamos assim. Não só porque se perde um bébé, mas o que me levou a escrever isto aqui, foi que quem, infelizmente esteja à espera de abortar, tenha uma pequena ideia do que isso é e que pelo menos saiba o que lhe espera, pois eu não fazia a mínima ideia.

Agora, bola para a frente!
Beijinhos

2 comentários:

pekala disse...

não sei que dizer.senti cada palavra que escreveste.merda.

Gaja disse...

Passou linda... antes agora no início do que mais tarde! ;)
(não é tão fácil como parece quando se diz, mas sinto mesmo isto!). Bjooca grande e obrigada :)